quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
— Retrato em branco e preto - Tom Jobim e Chico Buarque

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.
— Chico Buarque, Samba e Amor .

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Tristeza, 
me dê licença
pois já é tarde, 
fiquei demais por aqui. 
Vou pegar carona 
com a felicidade. 
Essa moça é muito esperta, 
passa feito furacão, 
mas ela não te devasta
aquieta tua alma, 
preenche teu coração. 
E esta foi a última rima
que emprego você, 
ó tristeza. 
Digo-lhe adeus neste momento, 
e não, este adeus eu não lamento. 
Felicidade me aguarda em sua casa 
com café-quentinho e bolo-de-avó posto à mesa.